| O vício do novo século
Com a inclusão digital, cada vez mais pessoas –
principalmente
Segunda-feira, 09 de abril de 2007
Paula Protazio e Wálter Nunes
DEPENDENTE
Henrique, de 14 anos, largou os estudos
por causa do vício. Dos R$100 que
ganha por mês gasta R$60 com
jogos de computador
O engenheiro de computação Rogério, de 28 anos, tem
um diário na internet. Mas ele não faz piadas com as notícias,
não dá dicas culturais nem comenta jogos de futebol. No
diário, Rogério se confessa um viciado em jogos eletrônicos
e conta sua luta para largar a dependência. Em um dos textos do
site http://www.vicioemjogos.blogspot.com
<http://www.vicioemjogos.blogspot.com/>, ele relata uma recaída.
"Não me segurei mais que alguns dias após o último
post (texto publicado no site). Entrei em sites de jogos rápidos
e baixei alguns. Não me lembro se passei duas, quatro ou seis horas
jogando, ou se joguei um, dois ou três dias nas semanas seguintes.
Mas voltei a jogar, e uma vez que você volta, uma vez que você
entra de novo no universo da satisfação imediata, você
pára de pensar racionalmente."
Assim como os demais personagens desta reportagem, Rogério falou
a ÉPOCA sob a condição de que sua identidade verdadeira
não aparecesse, e por isso teve o nome trocado. Sua doença
já é considerada por especialistas em psiquiatria como a
provável epidemia do novo século. Com a difusão do
acesso ao computador, cada vez mais pessoas se tornam dependentes de jogos
eletrônicos e da internet. "Daqui a alguns anos teremos um
verdadeiro surto de viciados em computador. Ninguém se deu conta
da gravidade da situação", afirma o psicólogo
Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do projeto Dependentes de Internet,
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São
Paulo. Trata-se de um fenômeno recente e difícil de quantificar.
Segundo os especialistas, o número de pessoas atingidas pode ser
bem maior que se imagina. O Brasil tem cerca de 4 milhões de usuários
da internet. "A comunidade médica internacional estima que
10% das pessoas com acesso à internet desenvolvam essa dependência.
O Brasil já pode ter aproximadamente 400 mil viciados", diz
Nabuco.
Nos Estados Unidos, o fenômeno vem sendo estudado de forma intensa.
Para a psicóloga Marissa Hercht Orzack, coordenadora do Centro
de Viciados em Computador da Universidade Harvard, trata-se de um vício
como todos os outros. "A pessoa não dorme, não se alimenta,
abandona os amigos. Não tem vida, deixa de lado até a higiene
pessoal", afirma Marissa. "Trato pessoas que ficam mais de 30
horas seguidas praticamente sem sair da cadeira." A Universidade
Yale, nos EUA, realizou pesquisa com 607 adolescentes e constatou que
apenas 6% deles não jogavam em computadores. Cerca de 8% dos adolescentes
entrevistados possuíam problemas relacionados aos jogos.
O organismo de um viciado em jogos de computador reage de maneira parecida
ao de um viciado em drogas como crack ou cocaína. Quando a pessoa
está jogando, seu cérebro libera uma substância chamada
dopamina, que causa sensação de prazer e euforia. Isso faz
o viciado querer passar todo o tempo jogando. "Enquanto no organismo
do viciado em drogas a dopamina é liberada por um estímulo
químico, no viciado em jogos de computador ela é liberada
por causa de um comportamento repetitivo", diz o psiquiatra Daniel
Spritzer, da Universidade do Rio Grande do Sul. Durante o tratamento para
largar o vício, é comum o viciado sofrer com crises de abstinência
ou ter recaídas. A dependência pode levar a casos extremos.
Em 2005, sete pessoas morreram na Coréia vítimas de exaustão
e ataque cardíaco enquanto jogavam.
Terapia e antidepressivos
O diagnóstico da doença é difícil. Muitos
pais se sentem confortáveis em saber que o filho passa horas em
frente ao computador em vez de sair para as ruas e se expor à violência
das grandes cidades brasileiras. "Alguns reclamam do tempo que os
filhos ficam no computador, mas não vêem isso como um problema
que necessite de tratamento", diz a psicóloga Elizabeth Carneiro,
da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. O problema também
atinge adultos, e muitos têm vergonha de admitir. No início
do ano passado, o psicólogo Cristiano Nabuco atendeu em seu consultório
um empresário que dizia estar com depressão. Após
algumas consultas, Nabuco descobriu que seu paciente era, na verdade,
viciado em jogos eróticos. "Ele passa o dia participando de
um jogo em que as pessoas criam personagens que têm como meta arrumar
um parceiro para fazer sexo virtual", diz Nabuco. De acordo com o
psicólogo, seu paciente vai então para casa, espera a esposa
dormir e passa a noite diante do computador. Sua vida pessoal e profissional,
segundo o especialista, está desmoronando.
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"Os pais não
devem usar
a internet como babá
eletrônica", diz Kimberly
Young, psicóloga da
Universidade de Pittsburgh |
O tratamento
de viciados em jogos é semelhante ao de dependentes de drogas.
Baseia-se em terapia e em palestras preventivas e de motivação.
Alguns pacientes tomam medicamentos antidepressivos. |
Isso porque, de acordo com a psicóloga americana
Kimberly Young, da Universidade de Pittsburgh, pessoas que sofrem com
depressão ou transtornos compulsivos têm maior tendência
ao vício. "Quanto mais a pessoa estiver deprimida, mais ela
poderá se envolver na rede on-line", diz Kimberly. É
o caso de Rodrigo, de 15 anos. Ele teve de abandonar os estudos no ano
passado para se tratar do vício em jogos de computador. "O
Rodrigo chegou a pegar dinheiro escondido do pai e até da empregada
para poder jogar em lan houses", afirma a mãe, Rosa. Para
suportar a síndrome de abstinência, ele passou a tomar antidepressivos.
Os primeiros centros de tratamento começam a surgir no Brasil.
A Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro, montou um grupo
de terapia. O grupo Jogadores Anônimos, entidade que ajuda viciados
em jogos de azar, recebe cartas e e-mails de pessoas de todo o país
em busca de ajuda para viciados em jogos de computador. "O jogo de
computador é diferente do jogo de azar porque não envolve
aposta. A procura por esse tratamento está aumentando e vamos montar
em breve um grupo de apoio", diz Ubiraci Rezende, diretor dos Jogadores
Anônimos. Nos EUA, psicólogos atendem por e-mail viciados
em jogos eletrônicos. Universidades como Harvard e Yale têm
departamentos para o tratamento desses pacientes. Uma clínica na
Holanda desenvolveu no ano passado uma dinâmica terapêutica
em que os dependentes, além de meditar, saltam de pára-quedas
e praticam atividades físicas.
O vício em jogos eletrônicos não é exclusividade
das classes mais altas. A queda no preço e os longos financiamentos
estão tornando o computador um aparelho quase tão comum
nos lares quanto forno de microondas ou telefone. Quem não tem
um em casa pode freqüentar por preços bem baixos uma lan house.
Passar uma hora em frente do computador pode custar apenas R$ 1. Há
casos de meninos de rua que gastam o dinheiro das esmolas em lan houses.
Alan, Leonardo e Rafael, todos com 14 anos, ganham cerca de R$ 30 por
dia tomando conta de carros. Gastam boa parte desse dinheiro nas lan houses
da zona leste de São Paulo, onde chegam a ficar até 12 horas
seguidas. Os jogos que eles mais gostam são o Counter Strike e
o GTA, que simulam combates e roubos de carros.
MENINOS DE RUA
Alan, Leonardo e Rafael, de 14 anos,
gastam o dinheiro das esmolas com
jogos de computador, em São Paulo
Na rede de relacionamentos Orkut, a comunidade Viciados em Lan House já
tem 33 mil integrantes. As lan houses chegaram ao Brasil em 1998 e existem
hoje no país pelo menos 25 mil. Esse número pode ser muito
maior. Boa parte das lan houses não tem cadastro. Em Paraisópolis,
uma das maiores favelas de São Paulo, a loja Web Games tem 20 computadores.
Está sempre lotada. Henrique, de 14 anos, é um dos freqüentadores
mais assíduos. Aos 13, ele abandonou a escola depois de se viciar
em videogames. Aos 14, passou a freqüentar lan houses. Ele ganha
R$ 100 por mês cuidando de animais domésticos. Desse dinheiro,
gasta R$ 60 em lan houses. Como costuma acontecer, a mãe só
percebeu a gravidade do problema tarde demais. "Os pais não
devem proibir o jovem de ficar no computador, mas precisam supervisionar
o que ele faz", diz a psicóloga Kimberly Young. Para impedir
que as crianças fiquem obcecadas pelo computador, segundo a especialista,
os pais devem aumentar as atividades sociais e escolares de seus filhos.
"Não se deve usar a internet como babá eletrônica."
Prostituição infantil
Não há uma lei federal que regulamente as atividades das
lan houses no Brasil. Em São Paulo, uma lei estadual determina
que esses estabelecimentos cadastrem todos os usuários e limitem
o acesso de crianças. Eles são obrigados a exigir dos usuários
dados como endereço, número do documento de identidade e
contato telefônico. A entrada de menores de 12 anos só é
permitida se eles estiverem acompanhados pelos pais ou responsáveis.
Um projeto de lei propondo normas para o funcionamento das lan houses
em todo o país, nos moldes da lei paulista, tramita na Câmara
Federal. "Tive essa idéia depois de ver atividades suspeitas
em lan houses", afirma o autor do projeto, o deputado Arnaldo Faria
de Sá (PTB-SP).
Ele se refere a casos como o de Ribeirão, cidade pernambucana
de 41 mil habitantes. Nos últimos dois anos, 22 lan houses foram
inauguradas na cidade, e algumas delas eram fachada para prostituição
infantil. "Meninos e meninas de 13 a 15 anos faziam de tudo dentro
dessas lan houses: comiam, dormiam e se prostituíam", diz
Iracema da Silva, presidente do Conselho Municipal da Defesa dos Direitos
da Criança e do Adolescente de Ribeirão. Os donos das lan
houses foram chamados ao Ministério Público Estadual para
assinar um acordo em que se comprometiam a restringir o acesso de menores.
Isso impediu que houvesse novas histórias como a de Mariana, de
15 anos. Aos 13, ela se prostituía para sustentar o vício
em jogos por computador. Fotos dela nua fazendo sexo com rapazes foram
parar na internet. Num desses encontros, engravidou. Hoje, seu filho tem
3 meses e Mariana não sabe quem é o pai.
Efeitos químicos e comportamentais do vício em computador
O núcleo Accumbens, no cérebro, produz uma substância
chamada dopamina, responsável pelas sensações de
euforia, satisfação e prazer. No dependente em computador,
a liberação dessa substância é causada por
movimentos repetitivos. No viciado em drogas, isso acontece pelo estímulo
químico.
Seu filho, amigo ou cônjuge pode estar viciado em internet
se:
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O dia dele gira em torno
do computador. Só fala sobre internet |
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Nos últimos meses, vem aumentando o tempo
em que passa diante do computador |
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Tenta diminuir a freqüência com que joga,
mas não consegue |
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Mente sobre o tempo em que permanece no computador |
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Apresenta depressão |
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Não se alimenta bem, não faz higiene
pessoal. Tem olhos secos, enxaqueca e insônia |
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Sente irritação quando não pode
usar o computador |
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Não tem amigos, vida social e profissional.
Tem problemas na escola ou no trabalho |
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG76953-6014-464-2,00.html
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