Não à ditadura virtual
Terça-feira, 05 de junha de 2007.
MARIA INÊS DOLCI
Não à ditadura virtual
O estado policialesco, em que uns vigiam os outros, cheira mais a stalinismo
do que a proteção aos bons internautas
FALTA MUITA DISCUSSÃO e aperfeiçoamento para que a internet
ganhe um projeto de lei à altura de sua importância no Brasil,
um dos países em que mais cresce o número de internautas,
e em que os usuários ficam mais tempo conectados. Dois aspectos
polêmicos se sobressaem no substitutivo do projeto de lei do senador
Eduardo Azeredo (PSDB-MG): o conceito de defesa digital e a "deduragem
virtual" obrigatória, de parte dos provedores de acesso à
internet.
Defesa digital seria o sinal verde para que técnicos de informática
invadissem as comunicações de suspeitos de ser hackers (piratas
de computador). Uma espécie de liberdade para piratear pretensos
piratas. Como disse um mestre na área, em comentário no
meu blog: "Atuo com "security officer" para um produto
em uma multinacional. Isso me habilita a interceptar e alterar dados on-line?".
Deduragem virtual, obviamente, não é um conceito do senador,
mas é exatamente isso que o projeto propõe. Imaginem provedores
de internet, que não são juízes, com a liberdade
para "entregar" suspeitos de práticas criminosas na web!
Que poder fora do comum, que facilidade para destruir reputações
em uma só tacada.
Como punir, então, os bandidos da web, sem esses mecanismos que
o projeto sugere? Em primeiro lugar, é necessário que os
internautas decentes, a maioria, tenham canais e proteção
para informar às autoridades sobre e-mails com armadilhas para
roubar senhas, com vírus executáveis e outras patifarias.
E que, daí, sim, juízes autorizem a quebra, digamos, do
sigilo internético.
Além disso, sites picaretas de vendas que aplicam golpes em incautos
abrem e reabrem o tempo todo, embora se saiba quem são seus donos
e de onde vêm. Por que eles escapam impunes?
Promover um estado policialesco, em que uns vigiam os outros, cheira mais
a stalinismo do que a proteção aos bons internautas. Tornar
crime inafiançável o uso de logotipos de órgãos
públicos seria uma punição adequada para golpistas.
Estabelecer equivalência em anos de prisão para cada mil
reais roubados pela internet, outra forma de coibir crimes como "phishing"
(criação de páginas falsas para "pescar"
dados como senha bancária).
Sem esquecer que, para escapar dos golpes virtuais, os internautas também
devem fazer sua parte, refreando a vontade de levar vantagem (caso típico
das ofertas de produtos a preços muito abaixo do mercado), utilizando
softwares antivírus e anti-spyware (espiões escondidos em
sites da internet).
Criar cadastros de golpistas; dificultar o acesso a contas de e-mail,
serviços de banda larga e de provedores de conteúdo; estabelecer
penas severas de prisão, sem direito a redução por
bom comportamento, são algumas formas de aumentar a segurança
da web.
Vamos aproveitar que a votação do projeto foi suspensa,
temporariamente, para melhorá-lo.
Hackers, crackers e outros pilantras merecem cadeia. Mas sem Big Brother
legalizado, por favor!
NA INTERNET -
http://mariainesdolci.folha.blog.uol.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0506200703.htm
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