O casamento do século Não é difícil compreender o que está em questão. A TV ocupa um lugar central na vida das pessoas – e nada indica que isso deixará de ser verdade tão cedo. Já o computador e a internet são o terreno em que a revolução do vídeo independente está acontecendo. Era natural que se buscasse aproximar o eletrodoméstico da sala de estar daquele que costuma ser acomodado no quarto ou no escritório. As possibilidades abertas por essa integração vão mudar a vida do espectador. O computador deverá se converter numa videoteca. Por meio dele, um dia será possível transportar para a TV o acervo inesgotável de vídeos de sites como o YouTube. Ele funcionará, ainda, como uma ferramenta de compra e locação – o que se vislumbra é nada menos que o dia em que os discos de DVD poderão ser dispensados. Segundo a consultoria Adams Media Research, em 2006 foram gastos nos Estados Unidos cerca de 28 milhões de dólares entre compra, aluguel e assinatura de serviços de vídeo pela internet. A projeção para este ano é que esse valor quintuplique. Em 2011, deverá chegar à casa dos 3 bilhões de dólares. O número parece baixo se comparado aos 16,5 bilhões de dólares que se faturou com os DVDs nos Estados Unidos no ano passado – mas a tendência a médio prazo é que essa vendagem fique estagnada. Não por acaso, as duas tecnologias que até pouco tempo atrás duelavam para se viabilizar como sucessoras do DVD – o Blu-ray, da Sony, e o HD-DVD, da Toshiba – caíram em desgraça. Por outro lado, as locadoras virtuais vão de vento em popa. Somente o iTunes contabilizou 1,3 milhão de filmes e 50 milhões de programas de TV vendidos desde outubro de 2005, quando se lançou nesse negócio. Hoje, ele enfrenta quatro concorrentes de peso: Netflix, Amazon Unbox (da livraria virtual Amazon), Movielink e BitTorrent. Até a gigante do varejo Wal-Mart passou a oferecer vídeos em seu site. Se esse comércio já começa a ter uma feição bem definida, ainda há várias questões em aberto sobre a forma como se dará a ligação entre televisão e computador. No passado, houve experiências tão frustrantes nesse sentido como a WebTV. Surgido em 1995, o conjunto que permitia acessar a caixa de e-mail e páginas da rede na tela da televisão era um híbrido mal resolvido. Além da qualidade de conexão sofrível, não era nada confortável de operar – basta dizer que o espectador, esparramado no sofá, tinha de ficar com um teclado de computador no colo o tempo todo. Uma pesquisa recente apontou que a complicação é a principal razão pela qual 80% dos americanos ainda preferem valer-se da TV a cabo e de sistemas que vendem programação à la carte, como o TiVo, a obter o que querem ver por meio do computador. Por isso, os aparelhos que estão chegando ao mercado buscam concentrar-se no essencial: dar ao espectador a chance de armazenar seus vídeos favoritos e assistir a eles quando bem entender. O Xbox deverá ter capacidade para guardar mais de 100 horas de material – o triplo do que tem o Apple TV. O LocationFree possibilita que se acessem os arquivos do computador do usuário e o sinal da TV a cabo de qualquer lugar – abre caminho, enfim, para usufruir tudo isso num laptop. Não há dúvida de que a nova geração de aparelhos dá um passo adiante – mas ainda há muito chão para que cumpram tudo o que a integração promete. Uma questão crucial continua sem solução: como reproduzir na TV de forma satisfatória os vídeos veiculados em tempo real na internet? Sem isso, nem pensar num YouTube na tela da TV de plasma, por exemplo. Isso sem falar nas restrições que o espectador encontra para baixar arquivos nesses equipamentos. Por meio do novo Xbox, só se poderá assistir aos vídeos disponíveis num serviço da Microsoft, o Live. Ao se comunicar apenas com o iTunes, o Apple TV priva o usuário de milhares de filmes e programas à venda em outros serviços. Como quase sempre acontece nos computadores, é possível burlar essas restrições – mas isso requer algum conhecimento técnico e gastos extras. O dono do Apple TV pode, sim, descarregar no aparelho os DVDs de sua coleção caseira, ou os vídeos armazenados na memória de seu computador, mas precisará arranjar programas especiais (como o VideoHub) para fazer a conversão. Os interessados brasileiros, aliás, já podem se preparar:
por enquanto, lançar mão de programas desse tipo será
o único meio de usufruir o Apple TV. Embora os usuários
de internet do país estejam entre os mais ativos do mundo, o mercado
nacional ainda não se tornou atraente o bastante para as locadoras
virtuais. As razões por que iTunes e seus congêneres não
operam no país são várias – as principais delas,
a baixa penetração das conexões de banda larga e
o temor da pirataria. Esses problemas retardam a inclusão dos brasileiros
no novo mundo do vídeo. Mas ela vai acontecer. |