Televisão, Criança e Imaginário e Educação:
Dilemas e Diálogos O mundo vive hoje uma nova era, uma segunda revolução - a técnico-industrial - advinda das Novas Tecnologias da Informação. É uma revolução silenciosa que veio para ficar, e que se caracteriza pelo desenvolvimento das telecomunicações, da informática, da automação de serviços, dos robôs, dos satélites, dos eletrodomésticos, e até dos eletrônicos utilizados para o lazer. A informação, por mais polêmica que seja, já invadiu os lares, as indústrias, as escolas. Nos Estados Unidos, pelo menos dois mil jornalistas desenvolvem a sua profissão sem sair de casa, através de uma rede de computadores. O mundo cada vez mais usa a tecnologia digital que se tornou uma linguagem universal. Até em escritórios domésticos, nas escolas e nas residências, a correspondência se faz via telex e fac-simile. Entretanto no Brasil, apenas escolas de grande porte, numa competição para atrair alunos e manter os já existentes, abriram suas portas ao computador, nas escolas francesas, inglesas, canadenses e estadunidenses ele já é um instrumento comum até nas escolas elementares. Já não é novidade o videotexto; agora é o videodisco
interativo que associa textos, imagens e vozes armazenadas em videodiscos
acoplados a um sistema computadorizado. É o diálogo homem-máquina. É a "Terceira
Onda" de Toffler. Em termos de Brasil, em especial no setor da educação, o que foi exposto é um "Admirável mundo novo", completamente ignorado pela maioria dos nossos educadores, o que não parece muito estranho, já que a querela se desenrola sobre o veículo televisão, que ainda não adentrou oficialmente os muros da escola, embora continue como uma "escola paralela" diante da realidade dos professores e dos currículos escolares. O mesmo pode ser dito com relação ao vídeo. No entanto, esse crescente desenvolvimento tecnológico criou novas aspirações baseadas no "american way of life". A casa do bairro afastado foi substituída pelos mini-apartamentos das zonas centrais, onde as crianças foram confinadas. A indústria eletrônica respondeu de pronto: impingiu-lhes uma "babá eletrônica" - a TV - que funciona vinte e quatro horas por dia, condicionando a rotina das crianças e de seus familiares, através do "show" que não pára. Nele desfilam heróis invencíveis e invulneráveis que, através de forças sobrenaturais, vencem os mais variados monstros e impedem as mais terríveis catástrofes que ameaçam a humanidade. Foi esse "show" que deu origem a acirradas querelas sobre efeitos catárticos ou narcotizantes que vêm mobilizando pais, educadores e especialistas de diversas áreas do conhecimento e de diversos países do universo, continuando sem respostas definitivas a inúmeras questões, diretamente ligadas às nossas crianças, como:
Para responder a estas e outras perguntas, pesquisadores de todo mundo vêm se debruçando sobre o tema "Televisão e seus efeitos". A. Bandura, O. N. Larsen, M.R. Liebert, M. Winn, (...), nos Estados Unidos; H. T. Himmelweit, (...), na Inglaterra; U. Eco, (...) na Itália; E. Verón, (...), na Argentina; E. Santoro, M. Colomina, (...), na Venezuela; M. A . Erausquin, (...), na Espanha. No Brasil, podem-se destacar os trabalhos de S. Miceli, M. T. F. Rocco, que abordam problemáticas diversas e M. J. Beraldi, E. D. Pacheco, M. F. R. Fusari, que pesquisam o tema "A relação Tevê/Criança". São, pelo menos, trinta anos de estudos sobre este onipresente meio que é a televisão, e apesar disso não temos todas as respostas. Possuíamos algumas que não são definitivas e nem definidoras, como exigem as questões que se levantam. Por quê? U. Eco parece nos responder quando diz que as respostas advém, em sua maioria, das atitudes das pessoas que, em geral, podem ser chamadas "apocalípticas e integradas". Tal afirmação, embora revestida de ludicidade, leva-nos a refletir sobre o perigo das avaliações maniqueístas que se cristalizam, gerando conflitos na comunicação. Falando de "apocalípticos e integrados", a título de exemplo, citaremos a obra de Marie Winn, "TV, Drogue?", que suscitou grandes preocupações e discussões quando se referiu aos possíveis efeitos que um programa de televisão trazia aos hemisféricos cerebrais das crianças, em especial ao relacionado com áreas da linguagem. Acredita a autora, que o fato de a televisão impedir a criança de exercer a sua capacidade lingúistica, trará como consequência um prejuízo no desenvolvimento verbal. Em seu trabalho, de cunho apocalíptico, a autora parece ignorar trabalhos de Vygotski quando, em "Pensamento e linguagem", fala sobre o 'discurso interior' enquanto transformação e evolução do discurso egocêntrico infantil, discurso que a criança pequena mantêm com ela mesma durante as suas atividades lúdicas - solilóquio ou fala egocêntrica, na linguagem de Piaget. Pois é este discurso interior que a criança, ao assistir televisão, utiliza como tipo de "diálogo" para se relacionar com o veículo televisivo, e que lhe serve de base para o discurso exterior. Com tal afirmação, e deixando claro que minha posição não é a de "integrada" (retorando ao conceito de U. Eco), quero dizer que de tudo que já li sobre efeitos da televisão em crianças (e como já li!), não conheço nenhum estudo baseado em pesquisas empíricas, com controle de variáveis, e que tenham considerado o "ambiente televisivo", que comprovem danos biológicos irreversíveis como os que refere Marie Winn. A pesquisadora brasileira M. T. F. Rocco (1989:26), assim se refere à obra que acabamos de citar: Ainda que aceitemos discutir as eventuais limitações que possam sobreviver a indivíduos que permaneçam horas a fio diante da televisão, não concordamos com o tratamento excessivamente apocalíptico dado ao tema pela obra de Marie Winn. Por certo, alguns efeitos devem ocorrer, mas não cremos, no entanto, num comprometimento irreversível de níveis menos ou mais complexos no pensamento verbal. Afinal, não fossem teorias epistemológicamente tão sólidas quanto, no caso, a de Vygotski, teríamos no outro prato da balança, a força das evidências. É diante dessa televisão que sessenta milhões de brasileiros (quase a metade da população), de diferentes idades e de diferentes estratos sociais, pára as suas atividades para assistir a "Novela das Oito", programa de maior audiência levado ao ar pela Rede Globo. Qual o motivo de tanta fascinação? Entre as diversas respostas temos: "Esta é um verdadeiro Olimpo, com narrativas fabulosas"; "Ela lida com vivências profundas do cotidiano cercado de mistérios"; "Ela é uma janela para o universo"; "Ela nos permite encontros com desejos universais (...)". Essas e outras questões, tendo a criança como centro, direcionam as minhas investigações há mais de vinte anos. Elas tiveram início com a minha tese de doutorado "O Pica-Pau: herói ou vilão? Representação Social da Criança e Reprodução da Ideologia dominante", publicada com o mesmo nome, pela Editora Loyola, São Paulo, 1985. Tal pesquisa, embora de cunho um pouco apocalíptico, foi o marco que originou os meus trabalhos e observações sobre a relação TV/Criança. Dessas preocupações surgem meus três cursos de pós-graduação : 1 - TV/Criança: uma cultura de lazer ou de alienação? ; 2 - Infância, Cotidiano e Imaginário Infantil; 3 - Meios de Comunicação, Infância e Educação: representações e imaginário social; a minha linha de pesquisa, Comunicação e Educação; o LAPIC - Laboratório de Pesquisas sobre Infância, Imaginário e Comunicação; e o grupo de trabalho Imaginário Infantil, que coordenei na INTERCOM até 1996. Foi ainda o Pica-Pau, programa preferido pelos sujeitos da minha tese de doutorado, que me levou a aprender a ler a linguagem cinematográfica dos desenhos animados veiculados pela tevê, a fim de entender a fascinação que eles despertam nas crianças. Assim surge a minha produção, tentando esclarecer as querelas acirradas sobre efeitos catárticos ou narcotizantes e responder a pergunta ainda não suficientemente aclarada, como: Por que a TV, amada por muitos é odiada por poucos? Qual será o enigma de tanta fascinação? Por que o Pica-Pau, Tom e Jerry e outros desenhos tradicionais resistem ao tempo e até a inovações tecnológicas do gênero? Em 1989, defendo a minha Livre-Docência, na ECA/USP, intitulada "A ECA por dentro e por fora - escola e trabalho: o poder SER e o poder FAZER dos jovens", que se constituiu em uma denúncia sobre a realidade acadêmica. Em 1990, coordeno o curso de extensão: Comunicação, educação e arte na cultura infanto-juvenil, para um público de 300 pessoas, que gerou a publicação, pela Loyola, do livro do mesmo nome. Devido a sua repercussão, organizo o segundo curso de extensão com a mesma temática, para o qual se inscreveram 600 profissionais de várias áreas do conhecimento. Em 1991, recebo uma bolsa do CNPq de Pós-Doutorado, com duração de um ano, para o desenvolvimento da pesquisa "Tevê e criança : produção cultural, recepção e sociedade", Espanha, na Universidad Complutense de Madrid, que objetivou estabelecer um paralelo cultural sobre a relação TV/criança na Espanha e no Brasil. Em 1994, organizo o LAPIC - Laboratório de Pesquisas sobre Infância, Imaginário e Comunicação - que aglutina pesquisadores de várias instituições de ensino. De 1994 a 1997, o LAPIC, com a subvenção do CNPq, realiza a Pesquisa Integrada "Televisão, Criança e Imaginário : contribuições para a Integração Escola/Universidade/Sociedade". Em 1997, tem início uma nova Pesquisa Integrada, financiada em parte (bolsistas) pelo CNPq, e em parte pela FAPESP, denominada "O Desenho Animado na Tevê : Mitos, Símbolos e Metáforas". O LAPIC vincula-se ao Departamento de Comunicações e Artes, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e tem como finalidades:
"Mais do que integrar academia, escola e sociedade, o LAPIC vem discutindo a necessidade do professor, através da Comunicação Social, de recursos midiáticos das novas linguagens e da mídia eletrônica, trabalhar as disciplinas curriculares a partir de eixos temáticos globalizados e que fazem parte do cotidiano de uma sociedade plural como: SAÚDE, que inclui a qualidade do desenvolvimento físico, emocional, sexual, intelectual, moral e social; CULTURA, que inclui o conhecimento e respeito pela diversidade cultual (incluindo etnias, religiões, ideologia...); EDUCAÇÃO, que não inclui apenas o direito ao ingresso e permanência na escola (educação democrática), mas o amor e respeito por tudo que é nosso e do outro, como a cidade, o bairro, a escola, o clube, as instituições públicas e privadas, as matas (...); TRABALHO, que sem opressão, permita a satisfação das necessidades básicas; LAZER, não apenas para o descanso dos fins de semana, mas para o desenvolvimento da criatividade. Só uma educação, formal ou informal, que considere esses eixos temáticos, como "fins" e como "meios", estará possibilitando a formação do cidadão consciente e crítico dos seus direitos e responsabilidades, permitindo-lhes assim, a análise crítica da realidade para que seja co-participante das transformações sociais" (Pacheco, 1998:10). 2. Falamos das rápidas transformações que o mundo vive hoje em função da revolução tecnológica, na qual a televisão tem um papel preponderante. Antes da televisão, no Brasil, as reuniões de amigos ocorriam em praças, nas esquinas, nos bares, nas calçadas, onde cada um dispunha da melhor forma a sua cadeira, para participar das conversas que ocorriam sob a vigilância do luar. Em 1950, a televisão chegou e, rapidamente se desenvolveu e se estendeu a todos os lugares e regiões do país. Mudaram-se os costumes, a moda passou a orientar-se pelos astros da TV, o linguajar perdeu as suas características próprias, as crianças, pouco a pouco, foram deixando as "trocinhas" e "peladas", que lhes oferecia a oportunidade do contato com a diversidade cultural, e foram se rendendo aos encantos da "telinha mágica". Tudo isso em função do "american way of life" que, sem pedir licença adentrou as nossas casas pelo tubo eletrônico. A partir da década de 60, em todos os países, a televisão comparece ao tribunal para ser julgada. "Ela é o mais alienante dos meios de comunicação", dizem uns; "ela é o melhor invento da sociedade contemporânea", dizem outros. Umberto Eco entra em cena com a obra "Apocalípticos e integrados" tentando de certa forma equacionar a polêmica: "A televisão é um dos fenômenos básicos de nossa civilização e é preciso portanto, não só encorajá-la nas suas tendências mais válidas, como também estudá-la nas suas manifestações" (1976:125). Após tanto tempo decorrido, o debate entre "Apocalípticos e integrados", em torno da televisão, continua acirrado. Apesar de todos os ataques às 625 linhas do tubo de raios catódicos, a televisão continua como peça principal da casa, ora como "babá eletrônica", ora como pano de fundo para as conversas entre amigos, ora como convidada assídua das refeições, ora como convite ao silêncio familiar, mas sempre ligada: como se fora "o convidado especial do dia" ou "o hóspede eterno". "As profecias não se realizam (...) a vida continuou. 1984 chegou. O apocalipse não veio, no entanto, também não vieram o "riso" e nem a "utopia" (1989:39). Ao contrário, estamos vivendo o revigoramento da TV através do vídeo, dos jogos eletrônicos e está prevista a TV de alta definição. Não serão mais 625 linhas, mas 1200 o que permitirá imagens eletrônicas semelhantes ao cinema. E tudo isso é e continuará sendo televisão. Assim, ela não acaba, apenas se modifica, permanecendo em pauta os discursos que a acusam de todos os males e aqueles que vêem nela o melhor evento da humanidade. É o que se pode ler em artigos, informes, notícias, teses (...) de autores estrangeiros. Podemos adiantar que tais falas não diferem muito da dos brasileiros, pois, embora catalogada como um serviço técnico de telecomunicação, a televisão é discutida apenas como fenômeno social, e como tal, fala-se dos seus prováveis efeitos, muitas vezes utilizando-se paradigmas teóricos e metodológicos inadequados. Afirmações desse tipo, em parte, ainda se baseiam em estudos norte-americanos, cujo referencial continua a ser experimentos semelhantes aos de Bandura. Quando se fala em violência é necessário saber explicitar o que se está considerando como tal. Quando se aborda a violência da televisão, em geral, se fala de quantas mortes, quantos estupros, quantos assassinatos já foram vistos por uma criança de determinada idade e, a partir daí, faz-se uma estimativa de quantos eventos sangrentos ela terá assistido ao completar a sua maioridade. Nisso parece que reside a preocupação da maioria dos pais e mestres, e de alguns estudiosos muito preocupados em contabilizar tais eventos. No entanto, há que perguntar-se a propósito do filme ou outra produção cultural, o que se considera violento nele, se são os tiros, os pontapés, os socos, ou se está se considerando o outro lado, que é constituído pela autoridade, pela ideologia dos poderes do "establishment", a apologia dos que mantêm a ordem que não está em discussão e que, portanto, podem utilizar de toda espécie de violência. É bom não nos esquecermos de que todo programa de televisão é carregado de ideologia, desde o desenho animado mais curto e simples até as publicidades, e por que não, as instituições família, escola, igreja, clube, sindicato (...). Mas as crianças espanholas (Pacheco, 1991) estão consumindo tanta televisão quanto as crianças brasileiras, e tal fato é motivo de preocupação para os dois países, em especial, com a colonização cultural alienígena denominada, na Espanha, de "Yankenização", que atinge as atividades intelectuais, o estilo de vida, a escala de valores individuais e coletivos, resultante da invasão da programação norte-americana que atinge a faixa de 50%, sem se contabilizar os comerciais da mesma procedência. Mas qual a saída? É necessário unir esforços para se repensar as atividades lúdicas da criança, reorientando a utilização da TV, que no lar, quer na escola, impedindo que ela seja mais um meio de escapismo às carências afetivas e ao isolamento das crianças. É esta a proposta de pesquisadores brasileiros que, a par das qualidades pró-sociais da TV, tentam ajustá-la ao currículo escolar não só para que ela seja lida em seus aspectos técnicos, mas para que através dela se aprenda a ter contato com a contemporaneidade e com os problemas atuais. Esta é também a proposta dos pesquisadores do LAPIC que, acreditando no poder da televisão, dizem que não se pode demonstrar que as crianças sejam passivas diante da TV e nem que sua capacidade de leitura se deteriore. A TV, como os vídeojogos, e, em certa medida, os computadores, favorecem um novo tipo de compreensão e de comunicação baseada nas propriedades da imagem. Nem a psicologia nem qualquer outra ciência pode adotar um resposta definitiva sobre se a TV é boa ou não para as crianças. Sua influência dependerá de como ela é utilizada. A TV comercial pode e deve ser utilizada como meio didático, já que através dela a criança recebe muita informação. Para tal deverá haver uma seleção de programas que estão em relação com as temáticas em estudo, o que exige que os professores conheçam a programação televisiva. Quem sabe se sintonizar a televisão nos programas infantis não tem para nossas crianças ressonância e poder de sedução da velha "era uma vez"? Todos nós somos conscientes da importância de Heide ou Sandokan,
que depois de passar pela televisão marcaram tanto as crianças.
E não é estranho que professores se questionem sobre estas
séries, tentando descobrir tanto seus efeitos positivos como negativos.
Perceber o espetáculo pela TV na atualidade é tão
necessário como aprender a ler e escrever. Por sua natureza, a TV
reúne todos os tipos e formas de arte e de todos os procedimentos
para apresentar ação dos acontecimentos no momento e local
em que ocorrem. A câmera é capaz de mostrar, desde o brilho
dos olhos de um cosmonauta após sua descida à Terra, até um
grandioso terremoto. Assim, aprender o alfabeto da TV resulta algo parecido
a aprender a ouvir música, a ver um espetáculo, um filme,
uma pintura. É necessário, no entanto, explicar como a televisão
interpreta o mundo e a arte. É necessário que se entenda
que a capacidade do quadro exclui, em comparação com o cinema,
a grande magnitude da imagem, onde se limita a participação
humana. Por outro lado, se ganha nas tomadas em "close-up" e
em outros planos. Web-site do LAPIC: Referências
bibliográficas Artigo publicado originalmente
no site Aurora |
| Voltar |